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10 INDICAÇÕES DA CONTINUIDADE DOS DONS MIRACULOSOS NA HISTÓRIA PÓS-APOSTÓLICA


Procurei interagir com as fontes primárias na “Patrística”. Os carismas diminuíram, mas não desapareceram. Não estou endossando pentecostalismo ou neopentecostalismo. Apenas levantando fontes.

1. INÁCIO DE ANTIOQUIA (35-107 d.C.)
O dom de profecia ou palavra de conhecimento se mostrou na experiencia desse importante pai apostólico:
“Alguns quiseram me enganar segundo a carne, mas não se engana o espírito que vem de Deus. De fato, ele sabe de onde vem e para onde vai, e revela os segredos. Estando no meio de vós, gritei, disse em alta voz, uma voz de Deus: ‘Permanecei unidos ao bispo, ao presbitério e aos diáconos!’ Aqueles suspeitaram que eu disse isso porque previa a divisão de alguns, mas aquele pelo qual estou acorrentado é minha testemunha de que eu não o sabia através da carne. Foi o Espírito que me anunciou [...].[1]

2. BARNABÉ (Epístola escrita entre 70 – 132 d.C.)
Barnabé responde sobre como Deus habita e realiza sua obra em nós:
“Pela sua palavra de fé, pelo chamado da sua promessa, pela sabedoria das suas leis, pelos mandamentos da doutrina, e ele próprio profetizando em nós, habitando em nós [...]”.[2]

3. POLICARPO DE ESMIRNA (69-155 d.C)
Policarpo teve a visão de sua própria morte:
“Noite e dia, ele não fazia senão rezar por todos e por todas as igrejas do mundo, como era seu costume. Rezando, ele teve uma visão, três dias antes de o prenderem: viu seu travesseiro queimado pelo fogo. Voltando-se para os seus companheiros, disse: ‘Devo ser queimado vivo!’”.[3]

4. JUSTINO DE ROMA (100-165 d.D.)
Justino de Roma testemunha a continuidade dos dons em seu tempo e exorta sobre os falsos profetas na igreja:
“Entre nós, com efeito, até o presente existimos carismas proféticos. De onde, vós mesmos deveis compreender que os de antes que existiam em vosso povo, passaram para nós. Contudo, da mesma forma que entre os santos profetas que houve entre vós se misturaram também falsos profetas, hoje também entre nós existem muitos falsos mestres”.[4]

5. IRINEU DE LIÃO (130-202 d.C.)
Irineu de Lião relata sobre os dons herdados dos Apóstolos de Jesus Cristo:
“Eis por que em seu nome os seus verdadeiros discípulos, depois de ter recebido dele a graça, agem para o bem dos outros homens, conforme o dom que cada um recebeu dele: alguns expulsam os demônios, com tanta certeza e verdade, que, muitas vezes, os que foram libertos destes espíritos maus creram e entraram na Igreja; outros têm o conhecimento do futuro, visões e oráculos proféticos; outros impõem as mãos sobre os doentes e lhes restituem a saúde; e como dissemos, também alguns mortos ressuscitaram e ficaram conosco por muitos anos”.[5]

Em outro trecho Irineu continua expondo a presença dos dons:
“Falamos de sabedoria entre os perfeitos, chamando perfeitos os que receberam o Espírito de Deus e que falam todas as línguas graças a este Espírito, como ele fazia e como ainda ouvimos muitos irmãos na Igreja, que possuem o carisma profético e que, pelo Espírito, falam em todas as línguas, revelam as coisas escondidas dos homens, para sua utilidade e expõem os mistérios de Deus”.[6]

6. TERTULIANO (160-220 d.C.)
Tertuliano observa algumas supostas manifestações de dons miraculosos entre os seguidores de Marcião, e ao mesmo tempo defende a manifestação verdadeira desses dons em seu tempo:
“Agora todos esses sinais (carismas espirituais) estão disponíveis ao meu lado, sem qualquer dificuldade, e eles concordam, também, com as leis, e as dispensações e as instruções do Criador”.[7]

7. HIPÓLITO (170-235 d.C.)
Em seu tempo Hipólito reconhece a presença do dom de cura:
“Se alguém disser que recebeu o dom da cura por revelação, não serão impostas as mãos sobre ele: os fatos demonstrarão se está dizendo a verdade”.[8]

8. ORÍGENES (185-254 d.C.)
Escrevendo contra Celso, Orígenes observa sobre manifestações dos dons miraculosos em seus dias:
“E do Espírito Santo que então apareceu sob a forma de pomba ainda subsistem sinais entre os cristãos: eles expulsam demônios, curam diversas enfermidades, e, sob a moção do Logos, têm certas visões do futuro [...]”.[9]

9. NOVACIANO (200-258 d.C.)
“O Espírito [...] é, portanto, quem constitui na Igreja os profetas, instrui os mestres, organiza o dom de línguas, realiza prodígios e curas, produz obras maravilhosas, dá o discernimento dos espíritos, fornece o poder de governo, sugere os conselhos, compõe e reparte quaisquer outros dons de carismas, e, assim, torna perfeita e consumada a Igreja do Senhor sob todos os aspectos e em todas as coisas”.[10]

10. AGOSTINHO (354-430 d.C).
“[...] Também agora se fazem milagres em seu nome, quer por seus sacramentos, quer pelas orações [...] porém sua fama e sua glória não se estendem como as daqueles [...]”.[11]

Entre alguns milagres testemunhados por Agostinho, uma mulher chamada Inocência, curada de câncer no seio; na cidade de Cartago e um ator de Curube, curado de paralisia e da hérnia.[12]

Agostinho continua enfatizando o poder de Deus para curar ainda em seu tempo:
“Ainda hoje, pois, se realizam muitos milagres e realiza-os o mesmo Deus que fez os que lemos e pelas pessoas que quer e como quer. Mas os últimos não são tão conhecidos [...]”.[13]

A teoria de que alguns carismas cessaram como morte dos apóstolos não se confirma na patrística. O que ocorreu foi uma diminuição, mas não a cessão final dos carismas. Pense nisso.

Att, Rev. Luciano Betim



[1] INÁCIO. In: Padres Apostólicos. São Paulo: Paulus, 1995, p.69.
[2] BARNABÉ. In: Padres Apostólicos. São Paulo: Paulus, 1995, p.182.
[3] POLICARPO. In: Padres Apostólicos. São Paulo: Paulus, 1995, p.90.
[4] JUSTINO. I e II Apologias, Diálogos com Trifão. São Paulo: Paulus, 1995, p.155.
[5] IRINEU. Contra as heresias. São Paulo: Paulus, 1995, p.136.
[6] IRINEU, 1995, p.309.
[7] TERTULLIAN. The five books against Marcion. [S.l.: s.n.], p.207.
[8] HIPPOLYTUS. Apostolic tradition. Ann Arbor: Cambridge University Press, 1962, p.41.
[9] ORÍGENES. Contra Celso. São Paulo: Paulus, 2004, p.55.
[10] NOVACIANO. Trindade, Escritos Éticos e Cartas. São Paulo: Paulus, 2017, p.89.
[11] AGOSTINHO, Santo. A Cidade de Deus (volume III). São Paulo: Editora das Américas, 1961, p.342.
[12] AGOSTINHO, 1961, p.345-346.
[13] AGOSTINHO, 1961, p.352.

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